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08/01/2017 Lavrador larga a roça para estudar e se torna médico após 19 anos em MG

Um morador de Monte Belo (MG) superou a baixa escolaridade e a falta de dinheiro para realizar um sonho: deixar de ser lavrador e se tornar médico. Após 19 anos investindo nos estudos e muita superação, ele hoje é motivo de orgulho para os pais. A história de José Reinaldo virou até capítulo de livro.

Foto: (Reprodução EPTV / Tarcísio Silva)
Foto: (Reprodução EPTV / Tarcísio Silva)

O início dessa história começa na zona rural de Monte Belo, onde o trabalho não era nada fácil.

"Eu tinha uma vida rural né, trabalhei em Alfenas em uma fazenda, lá eu cuidava de vaca. Aí a gente pediu conta e veio para Monte Belo, aí eu arrumei um emprego em uma granja de suínos", conta José Reinaldo Lopes da Silva.

Quando ele decidiu ser médico, ele tinha apenas o ensino fundamental. Aos 20 anos, José Reinaldo então decidiu deixar a roça e voltar a estudar. O que ele nem imaginava na época é que demoraria quase duas décadas até ele ver o sonho virar realidade. "Se você pensar que são 19 anos, é uma vida, de batalha, mas, valeu a pena".

José Reinaldo é de família simples. Os pais têm pouco estudo e sempre trabalharam pesado para criar os oito filhos. A mãe, Dona Divina, cortava cana e fazia de tudo. "Eu tinha que trabalhar né, deixar eles pequenininhos pros maiorzinho cuidar, foi muito díficil, e eu larguei de trabalhar com 52 anos porque não aguentei mais, de cortar cana. A gente ficava até com dó dele, porque passava até fome, tem dia que ele passava com uma banana", conta a aposentada Divina Rosa Lopes.

O interesse pela medicina veio em um momento de sofrimento da irmã, Sueli. Ela ficou doente e José Reinaldo precisou acompanhá-la no hospital.
"Como era hospital escola, tinha uma rotina de corrida de leito, que eles falam. Os professores vão com os alunos do 5º, 6º ano e eles vão discutir o caso, e eu gostava muito disso. A cada dia mais que eu permanecia lá, foi nascendo o desejo de ser médico mesmo", conta José Reinaldo.

Durante o tratamento da irmã, ele encontrou pelo caminho pessoas que o incentivaram a lutar pela profissão. Uma delas foi uma cardiologista.
"Como ele já era técnico de enfermagem, ele queria pagar a consulta da irmã e foi aí que eu disse pra ele para que não pagasse a consulta, que comprasse livros e estudasse, porque ele já tinha dito que tinha a intenção de ser médico", conta a médica Ana Márcia de Melo.

A médica descobriu que os dois tinham muito em comum. Além de parentes distantes, eles também enfrentaram dificuldades para estudar. A cardiologista escreveu um livro e dedicou um capítulo para contar a história de José Reinaldo.

"Esse livro é uma autobiografia que é uma alusão às pessoas que fazem as coisas de uma forma diferente. Eu entitulei essas pessoas de 'flores de maio'. As flores de maio elas florescem no inverno e não na primavera, elas fogem do convencional. E o Zé realmente é uma flor de maio, ele fugiu totalmente do convencional, porque é um menino que saiu da zona de risco, da marginalidade, da pobreza, de tudo que poderia ser o futuro dele e se tornou uma pessoa de bem", completou a médica.

Com pouco estudo, José Reinaldo encontrou um abismo entre ele e a medicina. Venceu todas as dificuldades dando um passo de cada vez. Foi aprovado no vestibular para Medicina na faculdade em Ribeirão Preto (SP), mas não tinha dinheiro para pagar as mensalidades. Foi aí que escreveu uma carta contando a sua história.
"Eu fiquei seis meses lá dentro como se tivesse passeando, sem me preocupar, sem preocupar com pagar nem nada, e foi correndo as mensalidades. Depois disso (da carta), eu consegui bolsa integral nele, aí, já estava preocupado só com estudar", conta o novo médico.

Depois de 6 anos, José Reinaldo colou grau e finalmente se tornou médico. Motivo de orgulho para os pais. "Só de ver ele em cima da mesa para assinar (a ata de colação) eu fiquei muito emocionada", disse a mãe.
"Um pai pobre estudar um filho para médico não é fácil não", disse o aposentado Pedro Lopes, pai de Reginaldo."

Agora, o novo médico, que dá expediente no Hospital Bom Pastor, de Varginha (MG), pretende ajudar os amigos da terra e retribuir também tudo o que fizeram por ele. "É uma alegria indescritível, eu entrando aqui hoje no Hospital Bom Pastor, não tenho nem palavras para mensurar o que estou sentindo neste momento", disse o médico.

E para quem acha que não é possível realizar seus sonhos, José Reinaldo tem um recado. "Trace uma meta e persiga até o fim e não desista nunca, enquanto há vida, há esperança", completou.

 G1

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